Se você acreditava que os dados em geral não eram relevantes para o seu cotidiano, a pandemia instaurada pelo COVID-19 impreterivelmente lhe fizeram repensar. O noticiário, saturado de informações, só se torna compreensível ao se demonstrar a curva de contágio e a evolução de mortes provocadas pelo vírus, num comparativo sem fim com outras nações por ele impactadas.

Um dos mais claros exemplos de verdade intersubjetiva de nossos tempos é a coleta de dados, bem como a tomada de decisões pautadas nesse pretexto, que se reveste de uma realidade um tanto quanto momentânea, diante da reiterada fragilidade das informações por vezes divulgadas pelos órgãos competentes.

Não apenas isso, mas as políticas públicas se baseiam em dados, que se resumem ao número total de testados, dos positivados, da taxa de mortalidade, porcentagem de ocupação de leitos de UTI, índice de isolamento em cada um das centenas de municípios brasileiros, ou seja, dados colhidos pela iniciativa pública impactam diretamente nas diretrizes que nortearão o cotidiano durante e após a pandemia.

Preocupa a pluralidade de dados, e em especial, a descuidada agilidade com que se buscam as informações e soluções, pressa essa que, definitivamente, é inimiga da perfeição, almejada, muitas vezes, pelo poder público para superar os obstáculos impostos e possibilitar a recuperação da moribunda economia num cenário mundial.

O governo de um Estado poderá utilizar dados que fundamentam uma ordem de lock-down, e pouquíssimo tempo depois, estabelecer, com base nos dados coletados, o afrouxamento do isolamento social, e consequente retomada das atividades comerciais, sabidamente indispensáveis para a retomada da economia.

O governo do Rio Grande do Sul, por exemplo, estabelece o regramento para a abertura de atividades não essenciais pautado, exclusivamente, em dados e mapas de cor com percentuais pré-estabelecidos, como taxa de ocupação de UTIs, diminuição no número de contagiados e índice de isolamento social.

O maior e mais recente temor, dentre tantos outros, que refere-se exclusivamente acerca deste tema, dão conta do aparente "desencontro" de dados, pelos entes públicos brasileiros, na busca por "tranquilizar" a população, e pautar medidas enérgicas de reabertura econômica.

Não podemos esquecer que a  Lei de Acesso à Informação, n° 12.527, surgiu para dispor sobre os procedimentos a serem observados pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios, com o fim de garantir o acesso a informações públicas previsto em nossa Constituição Federal. Trata-se de promover a ampla efetivação deste direito humano fundamental, sendo reconhecido por importantes organismos da comunidade internacional, como a Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Embora diretamente interessados na retomada da economia, jamais poderemos nos calar mediante a inconsistência proposital de números, que em nossa atual realidade se apresentam quase como entidade sobre-humana,  a ponto de remeter à norma hipotética fundamental, idealizada por Kelsen, e apta a balizar - muitas vezes - vis interesses contrários de agentes públicos.

Não podemos nos esquecer que o ano de 2020 será eternizado pelo surto epidêmico do coronavírus, mas não deixa de ser ano de eleições municipais, e a indevida utilização de dados poderá interferir diretamente na popularidade dos postulantes aos cargos públicos eletivos.

Nosso “novo” vocabulário coletivo em torno do COVID-19 - na boca de funcionários do governo, formuladores de políticas e cientistas e médicos - é necessariamente voltado para o futuro, mas a pandemia já transformou fundamentalmente o discurso público. Sem dúvida, a clareza e consistência com que as informações deveriam ser transmitidas deveria ser, no mínimo, instantânea por parte de Governos democráticos.

A coleta, armazenamento e divulgação de dados, serviço de crescente relevância, deve pautar-se nos mais prestigiados princípios éticos de conduta, como pura ciência que é, não devendo servir de instrumento para a tomada de decisões, que sabemos, muitas vezes equivocadas. É nisso que acreditamos, e é isso que nos faz trabalhar para o total aperfeiçoamento dos nossos serviços, inclusive no tocante ao universo de dados da saúde pública.