As regras de distanciamento social ainda estão na ordem do dia na maioria das cidades do mundo, incluindo o Brasil, e seguir as rotinas diárias é difícil quando estamos presos. Por mais que algumas cidades já estejam facilitando as medidas de distanciamento social para permitir que a vida social em si retorne a alguma aparência de normalidade, é uma ficção ainda tão distante, pois o Covid-19 teve um impacto devastador sobre as empresas, sem mencionar a trágica perda de vidas. O impacto da doença e as consequências serão sentidos por algum tempo e é improvável que haja um retorno ao antigo “normal”, cuja definição e essência dessa palavra está em plena transformação e mudança. São muitas as implicações relacionadas ao Covid-19, e não seria diferente se pensarmos no âmbito da nossa privacidade.

Estamos presenciando o trabalho incansável de cientistas no mundo todo para desenvolver uma vacina viável, e o compartilhamento coordenado de dados se tornou uma ferramenta fundamental na luta contínua contra uma resposta ao coronavírus, e métodos de coleta de dados em massa já estão sendo aplicados.

Naturalmente, sabemos que capítulos como esse na história da humanidade são responsáveis por transformarem a relação de uma sociedade, e qualquer programa de vigilância reconhecido por governos, sempre por mais bem-intencionados que sejam, nos fazem levantar sérias questões sobre como nossos dados pessoais estão sendo usados, qual o nível de exposição e controle com que estão tendo; quem, de fato, possui acesso amplo a massa de dados que estão sendo manuseados; se tais dados estão sendo compartilhados com empresas privadas apenas no combate ao coronavírus e qual a nossa garantia de que não serão explorados no futuro para outros propósitos? E, é claro, se existe uma maneira de mitigar o risco de violações da privacidade.

Mesmo que estejamos preocupados demais para pensar nelas, são questões importantes que certamente ressurgirão depois que o pânico diminui e o normal é restaurado na era pós-coronavírus.

Eventos como atentados terroristas em escalas ao redor do mundo são exemplos de como o mundo se transformou em um piscar de olhos, e direitos, de certa forma, até então invioláveis, foram anulados com um propósito de bem e segurança maior como um novo recado de ordem ideológica. Viajar passou a ser sinônimo de teste para cardíaco com bagagens sendo reviradas, detectores posicionados como se fosse uma linha de batalha, regras de transporte de objetos cada vez mais restritivas, sem contar as cenas dignas de se transformarem em memes quando não sabíamos mais o que retirar dos bolsos quando o dedo-duro de metal te denunciava e o policial polido de uma educação inglesa pedia que voltasse e repetisse tudo mais uma vez. Foi um processo, mas virou parte do nosso hábito aos poucos, afinal, trata-se de blindar e proteger nações contra eventuais ataques terroristas ao custo de nossas informações mais bem protegidas.

Poucos eventos na história moderna foram tão perturbadores quanto a pandemia do Covid-19, que está subvertendo simultaneamente nossa vida cotidiana e tudo mais que sabemos. O medo, por muitas vezes, dá margem para falsas sensações e é uma forma de licença poética para desfigurar os valores e princípios de nossa vida e privacidade. A chegada de um adversário invisível fez com que muitos governos desprezem as implicações de privacidade, em um esforço para salvar vidas. Porém, os dados confidenciais que estão sendo coletados não são exclusivos das organizações de saúde pública e dos governos: são nossos. Nos Estados Unidos, o governo firmou uma parceria com a Verily, uma empresa do conglomerado Google, para oferecer testes de triagem on-line que exigem que os usuários tenham obrigatoriamente uma conta do Google. Dados confidenciais também estão sendo acessados ​​por empresas de tecnologia de vigilância e desenvolvedores de aplicativos móveis. Os usuários do aplicativo Koerano Corona 100m, podem ver a data em que um paciente com coronavírus foi infectado, além de sua nacionalidade, gênero, idade e os locais que visitaram.

O novo mantra social de proteção a qualquer custo certamente esmagará a visão que temos da privacidade com violações frequentes. Questionários para todos os fins, especialmente os de imigração, trarão perguntas envolvendo nosso histórico de saúde, se nós ou alguém da nossa família foi infectado pelo covid-19.

A Azul Linhas Aéreas Brasileiras S.A se tornou a primeira companhia aérea a medir a temperatura de seus tripulantes, e certamente será um item de proteção sanitária obrigatório em procedimentos de embarques a todos os passageiros daqui pra frente. Até mesmo as coisas mais simples de uma rotina, como ir em um supermercado, farmácia ou restaurante, ou se hospedar em um hotel, terão como práticas verificar a temperatura das pessoas e aplicar uma dose de questionamentos sobre o seu passado e histórico de atleta. Às vezes um jantar mal recebido pelo seu estômago poderá lhe custar suas tão merecidas férias.

Em dias de vida normal, certamente nossos registros médicos confidenciais e vinculados apenas ao paciente devem ser mantidos em sigilo. Em um mundo atropelado por uma doença oculta, o compartilhamento com empresas privadas, mesmo no interesse da saúde pública, é motivo de preocupação, pois esses registros possuem um valor comercial significativo ao serem divididos com seguradoras, laboratórios farmacêuticos e agências de publicidade. É um ativo comercial importante e não há como calcular o seu valor.

Empresas que armazenam dados confidenciais de qualquer tipo, e venham a utilizá-los para ganhos comerciais futuros, serão restringidas por regulamentos de privacidade de dados, como o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados da União Européia (GDPR) e o California Consumer Privacy Act (CCPA). Para garantir totalmente a conformidade regulatória e proteção aos dados, as companhias do mundo todo devem adotar também as mais recentes inovações de Privacy-Enhancing Technology (PET). A ideia tem como premissa que as empresas aproveitem as ideias derivadas de dados privados de terceiros sem revelar informações confidenciais que não devem ser compartilhadas por razões éticas e legais.

Por um período ainda incerto, o novo normal da privacidade deve ser mais abrangente e menos egoísta. Deveremos falar em "nossos" e não nos "meus".  Em tempos de incerteza, devemos estar atentos como nossos dados serão tratados após o coronavírus, à medida que governos exploram estratégias e tomam decisões com o uso de dados para conter uma pandemia global de saúde.

Isso não deveria ser interpretado como um passe livre para abusar e aproveitar dos nossos direitos, onde em um mundo distópico momentâneo toda ação dos governos tem a chancela de ser legalizada. Devemos ter cuidado com a forma como a nossa privacidade será tratada quando essa crise passar e, além de lidarmos com o surgimento de novos desafios envolvendo dados, as tecnologias de privacidade devem se tornar o padrão para empresas e governos, para garantir nossa segurança e facilitar a colaboração em larga escala com dados habilitados para privacidade no caso de uma nova pandemia. Enquanto no Brasil o pouco-caso com a entrada em vigor da lei é notório, e ainda haja muita incerteza sobre quando a Lei Brasileira de Proteção de Dados (Lei nº 13.709 - “LGPD”) entrará em vigor, lembrando que com a publicação da Medida Provisória nº 959 (“MP nº 959”), cujas disposições alteraram a entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados (“LGPD”) para o dia 03 de maio de 2021, ganhando essa o privilégio de ter sua data adiada pela 2º vez, devido ao cenário atual do Covid-19, nunca foi tão importante estarmos preparados e dar continuidade aos projetos de conformidade de proteção de dados, visto que a mudança do status quo vai, novamente, redesenhar um novo conceito imperativo para a colaboração transfronteiriça entre as nações, e o impacto direto na reputação da empresa em relação com parceiros, funcionários e clientes, bem como a relevância nas relações comerciais fora do Brasil vão continuar exigindo uma proteção cada vez maior e mutações constantes. Em outras palavras, não devemos perder de vista a importância dos projetos de conformidade, independente da seriedade dos nossos governantes com a lei e nossos direitos fundamentais.