Diante de uma pandemia mundial, nunca fomos tão sedentos por acompanhar gráficos, tabelas comparativas e dados para formarmos ao menos uma opinião crítica e fundamentada. Nesse cenário, parece não haver dúvidas de que a tecnologia contribui muito para a disseminação da informação e coleta de dados para combate do coronavírus. Imagine todas as áreas da medicina hoje que demandam de decisões inteligentes e preditivas para salvarmos mais vidas no tempo mais curto possível. Mas ainda nos faltam a base dessas informações, já que não é só importante como utilizamos os dados, mas principalmente que eles sejam confiáveis.

Já escrevemos em nosso blog sobre o descontrole com o qual a massa de volume de dados nasce, aliada ao uso de IA: em um universo como o nosso, tudo ainda soa parte de uma conversa de roteiros de filmes futuristas. A verdade é que não imaginávamos num passado não tão distante que estaríamos mergulhados em questões sociais, culturais e legais causadas pela troca de informações sem precedentes. O bombardeio de informações ficou ainda mais notório diante da pandemia, situação agravada ainda mais pela possibilidade de todo e qualquer IP emitir uma opinião.

Com Governos e Autoridades chamando a atenção mais pela (in)competência e desorganização do que com a divulgação de informações e esclarecimentos confiáveis, parece que a mesma tecnologia que emerge a infinidade de informações ainda não é capaz de gerar medidas coerentes e organizadas de combate ao vírus. Cada nação busca suas medidas de controles para o combate ao vírus, questionáveis ou não, mas a ONU ainda anseia por uma união, que parece estar longe de acontecer. No caso dos países asiáticos, especialmente na China, é evidente que estão conseguindo de forma mais eficiente até agora lidar melhor contra a pandemia do coronavírus, combinando o uso da utilização dos dados de seus cidadãos com outras medidas preventivas e rígidas.

No entanto, fica claro que há uma supervalorização do papel da tecnologia na utilização dos dados unida a total ausência de regulação sobre a informação pessoal que cerca quase todos os países asiáticos, de uma forma geral. Não custa lembrar que a introdução da GDPR, especialmente após os fatos recentes como as eleições americanas de 2016, forçou autoridades de diferentes governos a enxergaram a total autogestão que empresas (inclusive os mesmos governos) se utilizavam das informações e o precipício à frente caso não houvesse uma regulação robusta no "mercado de dados", algo que cresceu tão rápido e tomou forma tão significativa que nem mesmo a mais moderna regulamentação acompanha esse setor e sequer enxerga todo seu horizonte. E se observado os princípios culturais e morais que envolvem os países asiáticos, que em geral sequer entregam garantia aos indivíduos com valores de personalidade e privacidade, fica fácil perceber o porquê da indiferença do legado que envolva a transparência e segurança dos dados de seus usuários.

A eficiência dos países orientais em sua grande maioria no combate e controle do vírus tem estreita relação com a configuração política de seus regimes mais autoritários, que os permitem adoção de ações mais radicais na efetividade de medidas de isolamento e de controle. O uso de tecnologia, machine learning no gerenciamento dos dados, reconhecimento facial e principalmente track de pessoas por redes móveis devem ter interferido em medidas mais bem direcionadas, no entanto não parece que foram os fatores mais relevantes no combate ao vírus, ainda que seja certo que foram utilizadas sem qualquer observância da segurança dos dados de cada cidadão. Não cabe aqui discutir se o autoritarismo estatal do oriente versus a liberdade do ser individual do ocidente tem que ser premiada, por mais que tudo demonstre que os resultados nessa crise atual são evidentes de um lado do mapa e talvez de fato o ocidente, com alguns bons exemplos e legados culturais, mas bem distante de todos os modelos, precisa aprender.

Porém é necessário alertar do perigo que o autoritarismo pode se valer da legitimidade (e, até então, resultados bem sucedidos) criada pelo combate ao vírus, servindo de um precedente para utilização indiscriminada de dados pessoais sob o pretexto de segurança da sociedade, mas com a evidente intenção de estar a serviço da tirania. A utilização de dados pessoais indiscriminados serviria de ferramenta para o controle sobre tudo, principalmente sobre meios de comunicação, combinada naturalmente com a maior rigidez na censura ao indivíduo. Para um verdadeiro caos social, esse modelo nem precisa ser adotado apenas pelos países asiáticos, bastando que qualquer país ocidental entre nessa onda.

Ainda que na sociedade democrática moderna haja importantes questões a serem discutidas e evoluídas, parece que a garantia dos direitos fundamentais e a liberdade de expressão e acesso à informação permanecem. Por isso, confiando na evolução do homem médio e na construção da democracia moderna, não se acredita que a China poderá patentear e vender seu modelo de Estado policial digital como resposta pelo sucesso, se assim podemos já afirmar hoje.

É fato que precisamos de estruturas governamentais mais organizadas, racionais, dispostas e capazes de moldar e regular de maneira apropriada o setor, para que o mercado de dados possa crescer com um grau de liberdade natural, e seja autônomo o suficiente para dar respostas em eventos emergências como o atual e, ao mesmo tempo, ande em compasso com os valores sociais democráticos e de liberdade. E, nisso, a utilização dos dados pessoais é um caminho já irreversível e merece ter um controle eficaz e contínuo.

Ainda sobre falsas convicções, através do estudo World Happiness Report, a Organização das Nações Unidas, ONU, publica o ranking dos países mais felizes do mundo, que mede os índices de felicidade de cada país, assumindo dados globais de 156 nações examinando seis variáveis: PIB per capita, suporte social, expectativa de vida, liberdade de expressão, generosidade e nível de corrupção política. No último e mais recente publicado este ano, a China aparece como a 94º no ranking, sendo que dos 10 primeiros, 9 estão na Europa. Talvez parte da nossa existência e vida ainda passe por respeitar direitos individuais como sociedade, do que presenciar o poder de polícia aplicada à tecnologia no uso de dados em pró de uma coletividade sem identificação. É uma jornada longa e de aperfeiçoamento conjunto entre governos, empresas e usuários, mas a confiança deve estar fincada na garantia da liberdade e da privacidade.


https://happiness-report.s3.amazonaws.com/2020/WHR20.pdf