O campo de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) rompe barreiras e cria novos capítulos para a inovação humana, e o avanço tecnológico é quase que natural. Conhecida como a indústria do futuro, também é o principal campo na liderança da era digital, mas esse campo principal sofre de um distúrbio socioeconômico...ainda em pleno século 21, existe o estigma de que na Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática ou STEM como é carinhosamente chamada (Science, Technology, Engineering and Mathematics) são, infelizmente, áreas de conhecimento influenciadas em grande maioria por homens.

Mas por que as mulheres deixam de se interessar por codificação e programação? E por que elas não seguem carreiras que promovem oportunidades iguais? Com a quarta revolução industrial já flutuando sobre nós e com uma escassez de pessoas habilidades no setor digital, é importante que homens e mulheres sejam qualificados e representados nessas áreas, se quisermos aproveitar ao máximo essa nova revolução digital.

Devemos inspirar e reconhecer a importância das mulheres no campo da TIC e o papel valioso que elas podem trazer para a indústria: ainda é tempo!



Quase 14% das mulheres entre 18 e 24 anos começaram a codificar quando tinham menos de 16 anos. Apenas para efeitos de comparação, desenvolvedores com mais de 35 anos têm duas vezes mais chances de tentar codificar antes dos 16 anos. Para ajudar a preencher essa lacuna de gênero explicita, algumas empresas de tecnologia pró-ativa estabeleceram recursos e programas significativos para ajudar a treinar jovens mulheres e meninas nas funções de TIC, como o Galvanize.

Outra iniciativa disponível é o SheCodes, um programa de codificação projetado especificamente para treinar e aperfeiçoar as mulheres na codificação por computador. Por meio desse programa, o SheCodes pode ajudar a preencher a lacuna de gênero no setor de programação de tecnologia e fornecer talentos femininos qualificados, necessários para o mercado de trabalho cada vez mais tecnológico nos dias atuais.

Uma forte fonte de incentivo técnico feminino local vem dos nossos irmãos portugueses: Portuguese Women in Tech. É uma iniciativa criada em 2016 que tem o propósito de atrair mais mulheres para carreiras tecnológicas e promover um ambiente tecnológico mais diversificado e inclusivo. Recentemente, a Portuguese Women in Tech, em conjunto com a Polar Insight, realizou um estudo para identificar o perfil real da comunidade portuguesa de mulheres na indústria de tecnologia. O resultado é preocupante.

O estudo revelou que muitas mulheres da comunidade tecnológica não estavam informadas sobre o potencial e as oportunidades disponíveis no campo e que há muito silêncio e falta de clareza em relação ao que é prejudicial e como isso põe em risco o avanço das mulheres nesse setor. Ainda, as mulheres que optaram por uma carreira em tecnologia por causa de sua genuína paixão por tecnologia descobriram que a falta de representação feminina, acumulado com a lenta progressão salarial e as baixas chances de progressão na carreira são as principais barreiras associadas à entrada de mulheres em volume no setor.

Segundo pesquisa feita pelo Github, o código fornecido pelas mulheres era aceito 78,6% das vezes, 4% a mais do que o código escrito por homens, o que comprova apenas a qualidade com que o trabalho era executado. Contudo, para espanto de um Maracanã lotado, a mesma pesquisa explicou que a simples identificação do gênero de um programador muda a forma com a qual gestores julgam a qualidade do trabalho e do sucesso. Os códigos executados por mulheres são aceitos com mais frequência, desde que o sexo do programador fique em segredo. Sim, não é uma piada.

Por aqui, dados da ONU Mulheres Brasil, revelam que as mulheres estão fora dos principais postos de trabalho gerados pela revolução digital, sendo que somente 18% delas têm graduação em Ciências da Computação e são, atualmente, apenas 25% da força de trabalho da indústria digital.

Sabemos que o que não falta no mundo são bilhões de mulheres talentosas, não apenas trabalhando no campo da TIC, mas que fazem a diferença no mundo profundamente e positivamente. Não é segredo que negócios liderados por mulheres tiveram desempenho quase três vezes melhor do que aqueles com executivos do sexo masculino e o setor de tecnologia não poderia ser diferente. Afinal, o primeiro computador foi inventado por uma equipe de homens e mulheres e foi graças a quatro mulheres notáveis ​​que foram pioneiras e fizeram da indústria de códigos e hackers o que é usado hoje.

As mulheres desempenharam um papel fundamental no avanço da tecnologia ao longo da história. O primeiro programador de computador foi uma mulher, Ada Lovelace, em 1815. Ela inventou o Analytical Engine quando tinha apenas 26 anos de idade. Em seguida, veio Joan Clarke, uma matemática que estudou na Universidade de Cambridge e que foi a única mulher recrutada para violar o Código Enigma. Ela foi fundamental para desvendar o código nazista e ajudou o Reino Unido a vencer a Segunda Guerra Mundial. Sem falar em tantas outras, como Grace Hopper, criadora da linguagem de programação de alto nível Flow-Matic - base para a criação do COBOL, além de Kathleen Antonelli, Marlyn Meltzer, Jean Bartik, Ruth Teitelbaum, Frances Spence, Betty Holberton e Adele Goldstine.

Uma criança de 10 anos muito provavelmente saberia dizer quem foram Bill Gates, Bill Joy e Steve Jobs, todos destaques na área de tecnologia, porém não faz ideia do nomes das responsáveis pelo início do que representa tudo o que vivemos.

Ainda é um problema social de berço e reflete exatamente parte do que a sociedade criou como estereótipo de gênero e perdura até a nossa vida presente. Podemos contar nos dedos as mulheres que lideram algumas das maiores empresas de STEM do mundo. Ginni Rometty foi a primeira presidente mulher e CEO da IBM e está constantemente incentivando as mulheres a não deixarem ninguém definir quem são e o que poderiam se tornar. Através de suas próprias palavras, crescimento e conforto nunca existem ao mesmo tempo e é o momento em que as mulheres podem aprender mais. A própria IBM criou um programa de desenvolvimento buscando capacitar as mulheres no campo da tecnologia.

Com o apoio da Microsoft Brasil, a WoMakersCode, uma iniciativa sem fins lucrativos fundada em 2015, que tem o objetivo de expandir o protagonismo feminino na tecnologia, realizará entre os dias 1º e 3 de junho a maratona digital Hacking de Carreira. O evento, totalmente online e gratuito, tem a missão de preparar às mulheres para o mercado de trabalho na tecnologia, passando por etapas como planejamento, entrevistas e mentoria técnica.

Em qualquer universo, especialmente na órbita digital e tecnológica, não deveria existir gênero. Quanto mais diversas foram as equipes, mais soluções e ideias serão exploradas, sem vícios e feudos. Para fortalecer a presença e o valor das mulheres, é importante incentivar escolas e os pais a popularizar o papel das mulheres incríveis como as citadas acima, buscando-se dar exemplos positivos para a nova geração de meninas que já estão curiosas, ajudando-as a imaginar o seu próprio caminho no mundo tecnológico. Precisamos de velocidade para que as empresas de tecnologia garantam a inserção de uma maneira mais rápida. Assim como qualquer outra profissão, tudo o que elas precisam é de bons modelos, ótimos mentores e oportunidades iguais de trabalho.